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Muzambinho

O Município

Setor de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Muzambinho-MG

Os conhecimentos sobre a história de Muzambinho nasceram do trabalho dos profissionais de história, colaboradores, jornalistas e outros interessados em construir a história de um município que, ao longo dos anos, transformou-se em um grande referencial no imenso estado mineiro. Os documentos que narram o desenvolvimento do município chegaram de todos os lugares e, assim, cuidadosamente a história se constrói. Nada de dizer que a história de Muzambinho está pronta. Os homens continuam a se fazer e refazer e, conseqüentemente, a cidade também. Seguindo este norte podemos dizer que um pouco de nossa história pode ser contada por todas as pessoas de nossa cidade de maneira simples.

CAPÍTULO I – A FORMAÇÃO DO POVOADO

No princípio, era a mata atlântica com sua exuberância de flora e fauna. Jequitibás, ipês, jacarandás, araucárias, bromélias e uma enorme quantidade de plantas e insetos conviviam com os sauás, as capivaras, pacas, lagartos, tatus, onças, jaguatiricas, tamanduás, veados, lobos, cobras, saguis, peixes e pássaros como os jacus, gaviões, garças, sabiás, joãos-de-barro, pintassilgos, bem-te-vis, tucanos, maritacas, papagaios e tantos outros que o tempo e o homem trataram de dizimar.
Os estudos ainda não foram suficientes e nem há uma comprovação precisa, mas podemos salientar que na região havia nativos tapuias, tupis, botocudos, cataguases, caiapós, guaianás e catuás. Nas cidades vizinhas de Caldas e Carmo do Rio Claro existem registros sobre a presença dos grupos indígenas na região. Um estudo mais profundo precisa ser feito, mas na tradição oral da cidade, fala-se na existência de bugres(1). Os nativos fugiram para o interior do Brasil(2) desconhecido na busca de um abrigo seguro onde pudessem estar longe das espadas dos colonizadores. A terra que antes era segurança e sobrevivência, passou a ser para os nativos, tortura e desesperança. A cruz e a espada dos colonizadores forçaram as migrações internas dos índios, e, provavelmente, em nossa terra não foi diferente. A busca pelo ouro e a expansão bandeirante dificultaram a vida por estas terras longínquas, até então não exploradas. Assim o nativo deixou a região bem cedo.
Após o terremoto que praticamente destruiu Lisboa em 1755, aumentaram as pressões da Coroa Portuguesa para que fosse enviado mais ouro para a reconstrução da cidade, o que obrigou o desbravamento do interior do Brasil, especialmente do sudoeste de Minas Gerais, para além da Comarca do Vale do Rio da Morte onde o ouro estava acabando. Sendo assim, os representantes da Coroa Portuguesa no Brasil Colônia não hesitaram em percorrer o imenso território na busca de novas fontes de riqueza. Em uma dessas viagens de reconhecimento de território e busca por novos lucros para a Coroa, acredita-se que o dirigente de Minas, Luiz Diogo Lobo da Silva passou pelo que hoje se denomina Sul de Minas Gerais.

“A partir de 1762, as margens dos córregos, ao longo das picadas abertas nas matas, ao norte de São Bartolomeu e ao sul de Jacuí já eram habitadas por negros quilombolas e bandeirantes paulistas e portugueses que iam de Jacuí à Cabo Verde. Quando o governador de Minas, Luiz Diogo Lobo da Silva desceu de Jacuí para Cabo Verde, em 1764, passou pelo local denominado Quilombo, justamente na posição onde hoje encontra-se Muzambinho. A carta de seu secretário, que o acompanhou na viagem, o inconfidente Cláudio Manoel da Costa, dizia que “passou pelos caminhos antigos, todos cobertos de mato”, o que significa que a região já era habitada antes dessa data. (Ouro Fino:1749 e Jacuí: 1755)”.(3)

A partir de 1762, portugueses vieram dar origem às muitas famílias que hoje habitam a nossa região. Trouxeram consigo a habilidade em tratar a terra, cuidar das criações, a tecelagem artesanal, a fabricação de queijo, a técnica de fabricar o açúcar, a rapadura, o açúcar mascavo, o fumo, o trabalho em couro e madeira, a religião, o folclore e as crendices populares. “Bem depois de 1808 vieram os portugueses de Açores. Raramente os sul mineiros que possuem sobrenome portugueses não possuem descendência açoreana” (4). “Os açorianos, por sua vez, descendem, de habitantes do Algarve, Estremadura(5), Alentejo e Minho”(6)
Consta em um mapa (figura 01), organizado pelo governador da Capitania de Minas Gerais, Dom Luiz Diogo, por volta do ano de 1765, que as primeiras comunidades instaladas na região estão registradas como Quilombo (do quimbundo significa esconderijo). Em outro mapa de 1767, o referido local também tem o nome de Quilombo com dois núcleos populacionais próximos com nomes de Dumbá (que significa Leão em muitas línguas africanas)(7) e Zumdu ou Zõdu(4), que é hoje o município de Jacuí. Verificando as possibilidades, percebe-se que a localização do nome Quilombo, possivelmente, seria onde hoje está situada Muzambinho. Estes núcleos eram habitados por negros africanos livres e seus descendentes (3).

Muito se discute sobre a fundação do povoado, mas cabe ressaltar aqui que de uma forma ou de outra, todos os habitantes desta região, heróis ou anônimos, contribuíram para que essa terra abrigasse de modo aconchegante as pessoas que residiam e que hoje residem por aqui. Não se pode afirmar quem chegou primeiro ao local onde se formaria o povoado, se os escravos africanos ou os descendentes de portugueses. Em termos legais, de acordo com o Arquivo Público Mineiro e a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, o povoado surgiu antes de 1.852, sendo Pedro de Alcântara Magalhães considerado um dos pioneiros da fundação. Com terras doadas por Maria Benedita Vieira, Ingracia Destarte, José Braga e João Vieira Homem o povoado recebeu o nome de São José da Boa Vista do Cabo Verde. Isto porque o povoado pertencia ao município de Cabo Verde, segundo o gráfico sobre o desdobramento de Vila Rica, datado de 1711.

CAPÍTULO II – O DISTRITO, A PARÓQUIA A VILA

Desde a sua fundação, o pequeno povoado começara a atrair homens e mulheres dispostos e desejosos de melhorar sua subsistência, ou até mesmo, sua qualidade de vida. O povoado de São José da Boa Vista de Cabo Verde cresceu. Sendo assim, o Sr. Cesário Coimbra e o Pe. Próspero Paolielo desejavam ver o povoado sempre em crescimento. Empenhados neste objetivo, juntamente com outros habitantes, realizaram o desejo do povoado tornar-se Distrito no dia 08 de outubro de 1.860.
O tempo passa e os cidadãos da pequena vila desejam mais. A Igreja Católica sempre representou uma força marcante no Brasil. A colonização trouxe a Igreja Européia. Aos poucos espalharam a cultura religiosa pelo imenso território brasileiro. Nestes tempos a Igreja Católica possuía uma organização digna de um Estado. Espalhada pelo Brasil, organizada em Paróquias e Dioceses, era a instituição responsável pelos registros de nascimento, casamento, óbitos. Portanto, ter uma Paróquia em um povoado ou distrito era a constatação do desejo de articulação de uma comunidade. No dia 02 de janeiro de 1.866 o distrito passou a ser Paróquia.
No dia 12 de novembro de 1.878, o distrito passou a categoria de Vila, formando Termo com as freguesias de Dores de Guaxupé (atual Guaxupé) e Santa Bárbara das Canoas (atual Guaranésia).

CAPÍTULO III – A VILA AGORA É CIDADE

Em 30 de Novembro de 1.880, a Vila passou à condição de Cidade e, ao mesmo tempo, de Comarca, com o nome de Mozambinho. Sua primeira Câmara Municipal foi dirigida pelo Coronel Cesário Cecílio de Assis Coimbra, que foi empossado como presidente da casa no dia 09 de janeiro de 1881, pelo então presidente da Câmara Municipal de Cabo Verde, Tenente Coronel Luiz Antônio de Moraes Navarro.
“Com o decorrer do tempo, o nome passou a ter a atual grafia com ‘U’. Em relatórios do governo da província no século XIX o local é grafado como Mosambinho ou Mossambinho”(8).

CAPÍTULO IV – LIBERDADE PARA OS ESCRAVOS

Os princípios republicanos e abolicionistas explodiam por todo o Brasil quando Muzambinho foi elevada à categoria de Cidade. Tudo indica que, por estas terras, antes da chegada dos portugueses, negros quilombolas viviam próximos onde hoje se situa o bairro Brejo Alegre. Neste local encontraram segurança e estavam longe da ira dos capitães do mato. Mesmo assim, não podemos afirmar que em Muzambinho não houve escravidão. Existem livros antigos de compra e venda de escravos o que dão conta de que aqui não foi muito diferente do restante do Brasil, ou seja, o negro, infelizmente, era tratado como objeto de compra e venda.
Os negros que aqui viviam, em sua maioria, “eram bantos de Angola ou provenientes de várias etnias de Moçambique”(9). Pela atuação dos abolicionistas de Muzambinho, principalmente, Américo Luz, alguns escravos da Comarca foram alforriados no dia 12 de maio de 1.881, antecipando em sete anos o ato da princesa Isabel que assinaria a Lei Áurea em 13 de Maio de 1.888.

CAPÍTULO V – A ORIGEM DO NOME MUZAMBINHO

Desde o ano de 1995, as pesquisas em torno da origem do nome do município estão se desenvolvendo. Não existe na história uma verdade pronta e acabada. A história é aberta a pesquisas que possam intensificar a descoberta sobre a vida de um povo. Desde Heródoto (historiador que pela primeira vez inseriu a história na ciência da investigação) que estamos sempre dispostos a completar as pesquisas. Esta idéia é reforçada por boa parte dos historiadores da atualidade. Portanto, a cada dia é necessário estudar sempre mais sobre a história de nossa gente. Voltemos a origem do nome do município. “O nome Muzambinho vem da influência que os africanos tiveram na formação do povoado. O significado da palavra Muzambinho tem várias explicações: vem do idioma Utchokwe, falado pela etnia Chokwe (ou Tutchokwe ou ainda Quiocos) em Angola, significando “adivinhação”(10), é também o nome de um chocalho, musambu, usado pela mesma etnia em rituais de adivinhação e para espantar os maus espíritos(10). O nome pode estar ligado à máscaras estilo muzamba usadas pela mesma etnia”(11).
“Outra versão é a de que vem da palavra mocambo, do idioma quimbundo, que significa: local onde os escravos fugitivos se reuniam (mu + Kambo = esconderijo)”(12). “Pode vir também das palavras muçamba e muçambé (espécie de planta brasileira), muçamba (instrumento musical, espécie de puíta ou cuíca), muçambo (enfeite de metal usado pela mulheres da etnia lunda, da região da atual Angola, para apertar o inferior das tranças dos cabelos)”(13).
“Há a hipótese de o nome vir de Moçambique, pois a região do atual país africano era chamada Musambih por geógrafos árabes da época medieval”(14). “Pode advir da dança Moçambique, praticada no município no século XX. A palavra Musambi teria o significado de “Sopro de Deus” (Mu = sopro, Zambi = Deus) e é usada em rituais de candomblé como uma saudação”(16).
“Também pode vir de Muzambo(17), lugar sagrado, lugar de prender elebó(18), no candomblé”. “O nome Muzambo ainda existe até hoje no norte de Angola, na região de Uige”(19). Segundo o antropólogo português João Vicente Martins o nome pode derivar de um tipo de cipó denominado “muzombo” (cujo nome científico é Entata gigas). Ainda, segundo Martins, o nome pode vir de “muzambo”, charcos onde as mulheres africanas punham os tubérculos da mandioca para fermentar. Martins considera a hipótese mais provável a de que venha de nzambo (sanguessuga) cujo plural é “mazambo”, sanguessugas existentes nos brejos. A palavra “Munsambu” significa peixe seco em idioma Kicongo e “ Muzombo” é o nome dado ao natural da região de Makela do Zombo ( Norte de Angola )”.
Existe, segundo o historiador Tarcísio José Martins, a hipótese remota de que a palavra tenha surgido na Língua Geral (mistura de espanhol com tupi e guarani) vindo da palavra Mokambu que significa: amamentar. Mitã Mocambu significaria “amamentar a criança”. Existem, segundo Tarcísio J. Martins, muitos nomes “paulistas” em bairros como Guatapará, Cateto, Macaúbas e Cambuí mas, sendo Muzambinho o diminutivo aportuguesado da palavra “Muzambo” , sua origem mais provável é a africano-bantu.

CAPÍTULO VI – A ESTRUTURA ÉTNICA DA POPULAÇÃO DE MUZAMBINHO

“A população é formada por descendentes de índios, africanos, portugueses, italianos, sírios, libaneses, espanhóis e alguns suecos. Há, principalmente na zona rural, pessoas com fortes traços indígenas: os caboclos”(20).
Fugindo da fome e da miséria na Europa, centenas de famílias italianas vieram para a região. Em Muzambinho, especialmente, havia uma espécie de Consulado Italiano, que funcionava entre a Avenida Américo Luz e a Avenida 13 de maio (hoje Avenida Frei Florentino).
Muitos imigrantes italianos fizeram história no município de Muzambinho e contribuíram definitivamente para o crescimento urbano da cidade. Como, por exemplo, o Sr. Francisco Leonardo Cerávolo, destaque pelo seu espírito empreendedor. Possuía fábricas de vinho, cerâmica, tijolos e trabalhou na construção de grandes obras como o Paço Municipal, Escola Estadual Cesário Coimbra, entre outras. Outros tantos imigrantes influenciaram na formação do povo muzambinhense. Para comprovar esta formação étnica, destacamos a grande presença dos italianos em nossa comunidade nas palavras do imigrante italiano, Ermenegildo Pulcinelli.

“ Muito italiano saiu da Itália e veio para Muzambinho, não veio para o Brasil, veio para Muzambinho(...). Grande parte veio para São José do Rio Pardo e grande parte veio para Muzambinho (...) Decerto havia algum intercâmbio (...)” (Emenergildo Pulcinelli- construtor descendente de italianos).

Negros, italianos, índios, alemães, sírios, libaneses e outros tantos desempenharam atividades diversas e trabalharam, juntos, na construção de uma sociedade disposta a conquistar o seu espaço.

CAPÍTULO VI – FERROVIA - OS TRILHOS DA MARIA FUMAÇA

A produção agrícola em Muzambinho aumentava significativamente todos os anos. A produção cafeeira acentuava-se a cada dia. Para escoar esta produção, o transporte era complicado. Existiam poucos recursos de locomoção. Era necessário encaminhar a produção até determinada cidade e, a partir dali, seguir nos trilhos das Companhias Ferroviárias, principalmente as Companhias Ferroviárias do Estado de São Paulo (Mogyana).
Sendo assim, nos idos de 1880, Américo Luz, apoiou e incentivou a criação da Estrada de Ferro Muzambinho. O objetivo era uma companhia forte que, além de cooperar no transporte da produção, traria emprego e o desenvolvimento esperado na região. A topografia e as dificuldades financeiras impediram a projeção da Estrada de Ferro Muzambinho. Não restando alternativas, os diretores da Companhia permitiram o seu encampamento nos anos de 1899 (Governo Estadual) e 1908 (Governo Federal)(21).
Os Governos Estadual e Federal não conseguiram realizar a obra tão esperada. Eram necessários recursos financeiros extraordinários para concluir o projeto da ferrovia na região. Américo Luz, mesmo com a Companhia encampada, não poupou esforços para defender tal projeto.
“O sonho do Dr. Américo Luz foi concretizado anos mais tarde. A Companhia Mogyana foi a construtora do trecho Guaxupé-Muzambinho e foi inaugurada no dia 06 de abril do ano de 1913. O tráfego era feito pela mesma companhia até a estação Tuyuty (atual Juréia). Uma das principais utilidades da referida ferrovia era a exportação do café. Além da Estação Muzambinho, outras estações foram construídas no município como: Estação Santa Esméria, Moçambo, Montalverne e Palméia. Na época, o município de Muzambinho estendia-se aos distritos de Monte Belo e Barra Mansa. Sendo assim, na área do distrito de Monte Belo foram construídas as Estações: Monte Cristo, Monte Belo, Tuyuty (entrocamento com a Rede Sul Mineira) e a Estação Engenheiro Trompowski, que servia ao povoado de Santa Cruz da Aparecida”(21).
Sem dúvida alguma, o progresso acelerou-se em Muzambinho com a passagem da “Maria Fumaça”. Datam deste período as construções do Fórum e Cadeia (hoje Paço Municipal), a Escola Estadual Cesário Coimbra, a Praça Dom Pedro II entre outros tantos benefícios incentivados pelo contínuo desenvolvimento da cidade. Com a política desenvolvimentista iniciada por Juscelino Kubistchek, o Brasil perdeu o interesse pelas ferrovias. A partir deste momento, muitas foram desativadas dando lugar às rodovias que começam a ser espalhadas pelo Brasil inteiro e no dia 20 de abril de 1964 foi desativado o uso da ferrovia em nosso município.

CAPÍTULO VII – MUZAMBINHO PRESENTE NA HISTÓRIA DO BRASIL

A história de Muzambinho sempre esteve ligada a fatos relacionados com a História Nacional: a possível formação do Quilombo anterior a 1765, o movimento abolicionista liderado por Américo Luz, a luta de seus líderes políticos para a vinda da estrada de ferro para a cidade, a criação do Lyceu Municipal em 1.901, através do qual mereceu o título de “Atenas Sul- Mineira” (cuidando da educação de jovens de todo o país, que posteriormente figurariam em importantes setores da vida pública nacional).
Muzambinho sofreu as conseqüências das revoluções de 1.930 e 1.932, quando a cidade foi ocupada por tropas paulistas, sendo então palco de confrontos armados. Segundo Otto Lara Resende: “Dutra liderou os mineiros, a partir de Muzambinho, empurrando os paulistas para o túnel”(22).

“Em 1.930, durante a revolução, as forças mineiras ficaram aquarteladas no Hotel São José, o comando era ali. As forças paulistas chegaram à Muzambinho e os mineiros foram para Varginha buscar reforços. (...) Os paulistas nomearam o agente do correio, Luiz Neri, como prefeito, por ser partidário de Washington Luís” (Messias Gomes de Melo, ex-prefeito de Muzambinho).

Em 1.937, com a implantação do Estado Novo, que manteve Getúlio Vargas no poder até 1.945, novamente Muzambinho vai sentir de perto as conseqüências de sua importância na vida política nacional. Com o Estado Novo, o prefeito Dr. José Januário Magalhães ficou no governo até 1.945, e o diretor do Lyceu Municipal, professor Salatiel de Almeida, foi afastado, sendo substituído pelo professor Saint Clair, que acabou sendo assassinado. Fala-se muito que o assassinato foi justificado por questões salariais, mas não podemos afirmar coisa alguma, pois no local do acontecido, estavam somente os oponentes. O professor Saint Clair faleceu dois dias após o acontecido. Esse fato levou ao fechamento do colégio e sua ocupação pelo Décimo Batalhão dos Caçadores Mineiros, em 1.938 .

“ DELEGACIA DE POLÍCIA: communicado
O Sr. Guaracy Prado, delegado de Polícia deste Município acaba de receber do Chefe de Polícia de Belo Horizonte o radiogramma abaixo:
B. Horizonte, 3-12-937
Delegado de Polícia
Muzambinho
Para o vosso conhecimento e providência, comunico-vos que foram dissolvidos todos os partidos políticos existentes no Paiz, inclusive o integralismo, em virtude decreto federal hoje assignado. Referido decreto prohibe uso distintivos partidários de qualquer natureza. Deveis executar ordem e não permitindo manifestações ou comentários imprensa a favor ou contra qualquer dos partidos ora dissolvidos.
(23)Sauds.
Ernesto Dornelles- Chefe Polícia”(23).


“Com a implantação do Estado Novo, houve um confronto entre as forças políticas locais, havendo tiroteio. Um dos grupos entrincheirou-se no porão do salão nobre do Lyceu Municipal. O conflito ocorreu durante a saída dos alunos, mas nenhum saiu ferido. Da janela de minha casa eu vi quando os adversários começaram a atirar” (Messias Gomes de Melo, ex-prefeito de Muzambinho).
De 1945 a janeiro de 1947 governou os destinos da cidade o Sr. Lauro Campedelli, mas desde o fim da ditadura varguista, em 1945, reiniciaram-se os movimentos políticos na cidade e o próximo prefeito eleito é o senhor Messias Gomes de Mello, da UDN.
O Lyceu Municipal voltou a funcionar no ano de 1948 com o nome de Colégio Estadual de Muzambinho (CEM) graças ao esforço de todos os cidadãos de Muzambinho, em especial o Dr. Lycurgo Leite Filho.
Acalmados os ânimos na cidade, as portas se abrem para uma nova retomada do desenvolvimento e o sonho de ver uma cidade com boa qualidade de vida. Muzambinho continua sendo palco de grandes acontecimentos políticos entre os “tucanos” e “pica-paus”, o que não é peculiaridade muzambinhense, toda cidade brasileira da época era dividida entre dois grupos políticos, mas o que se sabe, é que em Muzambinho o embate político era um jogo de forças grandioso.
Muzambinho sempre foi uma cidade que, embora não seja evidente, preocupou-se com a educação. Desde os tempos das aulas na casa do Sr. Francisco Navarro, do Lyceu Municipal, do Grupo Escolar Cesário Coimbra, do Ginásio São José, Muzambinho sentiu a necessidade do desenvolvimento do saber e para contemplar tal preocupação e, sentindo a realidade agrícola local, em 1953 é inaugurada a Escola Agrotécnica Federal de Muzambinho. A Escola começou a funcionar no início do ano de 1953, mas sua inauguração oficial aconteceu no dia 22 de novembro de 1953 com a presença de várias personalidades nacionais como o presidente do Estado de Minas Gerais Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Gustavo Capanema, Assis Chateaubriand e o Presidente Getúlio Vargas, então de volta ao poder, eleito pelo povo.
A Muzambinho de hoje não é nada diferente dos tempos passados, a disputa política local é sempre acirrada, mas democrática, visto que vivemos um período de intensa transformação nacional e os debates políticos ficam na esfera das propostas de mudanças.

CAPÍTULO VIII – NOSSA TERRA, NOSSA GENTE

Muzambinho é uma cidade hospitaleira. Os que por aqui passam ficam sempre com desejo de voltar. Aqui se respira o cheiro da terra, ainda não poluída pelas grandes indústrias que em uma corrida gigantesca vão se alastrando pelo país. Durante todos estes anos de história, muitos foram os que se preocuparam em deixar seu sinal por esta terra. Homens, mulheres, jovens e crianças que contribuíram para formar nossa comunidade. Muitos se destacaram pela sua posição política como prefeitos, vereadores, deputados, ou ainda, como diretores de escola, professores, secretários, etc. Mas muitos não se projetaram desta forma, mas não esqueceram de deixar a marca registrada. Estes heróis anônimos, gente do povo, gente que construiu e constrói a história.

CAPÍTULO IX – MUZAMBINHO – ECONOMIA, DESENVOLVIMENTO, TURISMO E O PATRIMÔNIO HISTÓRICO

A economia do município é baseada na agricultura e na pecuária. O principal produto, assim como em todo o sul de minas, é o café. Muzambinho é sede de algumas indústrias de pequeno porte e casas comerciais que atendem a outras cidades da região.
A cidade ocupa uma área de 414 Km2, localizada na microrregião da Baixa Mogyana, confronta-se com os municípios de Cabo Verde, Monte Belo, Juruaia, Guaxupé e, no Estado de São Paulo, a cidade de Caconde.
O desenvolvimento da cidade acompanha os acontecimentos do país. Aos poucos e com trabalho, a cidade vai crescendo, sem, entretanto, perder seu encanto de cidade do interior.
Na década de 1970 é Fundada a Faculdade de Educação Física. Na mesma cidade onde comemorava-se a inauguração do novo estabelecimento de ensino, uma nova instituição de educação, ocorrem torturas a estudantes muzambinhenses pelo Dops de Belo Horizonte. A repressão ocorreu devido a pichações feitas nos muros da cidade contra a ditadura militar.
Na década de 1980, a ditadura militar chega ao fim, deixando para os futuros governantes um país em crise. Após o período militar, Muzambinho também respira aliviada, e é na área da educação que vai se destacar, implantando transporte para os alunos da área rural a partir do ano de 1988.
Na década de 1990, com certeza, foi o período do desenvolvimento e resgate sócio-cultural do nosso povo, desenvolvimento do potencial turístico e continuidade no crescimento populacional urbano.
Em 1995 Muzambinho com a visita do Prefeito da cidade de Moçambique, Sr. Abel Ernesto Safrão, inicia-se um intercâmbio entre Muzambinho e os países africanos de língua portuguesa. A última visita dos países africanos de língua portuguesa aconteceu em fevereiro de 2003, com a vinda dos angolanos para um intercâmbio cultural e esportivo. Em 1995, Muzambinho recebeu da Embratur o título de “Cidade Potencial Turístico” e, em 1998, o título de “Município Prioritário para o desenvolvimento do Turismo”.
A cidade hoje está se tornando modelo de preservação do patrimônio histórico, artístico e cultural. Com a atuação do Setor e Conselho do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural o município conseguiu realizar o processo de tombamento de mais de 30 imóveis. A preservação destes imóveis visa, sobretudo, estimular a população para a valorização da sua história, sua cultura, sua terra e sua gente. Além disso, ocorreu a inauguração do Museu Municipal “Francisco Leonardo Cerávolo” no dia 30 de novembro de 2002.
Cabe destacar, ainda, que pesquisar a história de um povo, de uma cidade, de uma comunidade também é sinal de futuro. A modernidade deve estar sempre presente sem dar prejuízos a nossa história. “Preservar é preciso”, mas para isto precisamos de uma ação conjunta entre a comunidade, empresários e órgãos públicos, pois todos sabemos que a preservação é um instrumento de cidadania e, com isto, conseguiremos atingir os objetivos que todos desejam: o fortalecimento do turismo e do comércio, geração de rendas e empregos.

BIBLIOGRAFIA:

- Muzambinho, sua História e seus Homens – Bretas Soares , Moacyr .
- Adilson de Carvalho - A Freguesia de Nossa Senhora da Assumpção de Cabo Verde.
- Moçambique, Moçambiques – Itinerário de um povo Afro-brasileiro. Autor: João Lupi (professor de Filosofia e Antropologia da Universidade Federal de Santa Maria – RS ).
- Musical Instruments, Songs and Dances of the Chokwe – Bastin, Marie Louise . Smithsonian Institute Washington, Estados Unidos
Pandiá Pându & Ana Pându – página 229 -Editora Ediouro
Toponímia e Antroponímia no Brasil de Maria Vicentina do Paula do Amaral Dick – página 137.
- Arquivo Histórico Nacional – Rio de Janeiro
- Dicionário da Arquitetura Brasileira – Corona e Lemos Editora Art Show Books, 1989.
- “Método Moderno de Tupi Antigo – A Língua Mais Falada nos Primeiros Séculos”, de Eduardo de Almeida Navarro, filólogo da USP, Editora Vozes, 1998, página 610.
- “Dicionário de Guarani-Português” de Luiz Caldas Tibiriçá, páginas 113 e 114, Traço Editora, 1989.
- Histórico de Muzambinho, Setor de Patrimônio Histórico, organização: Neide Barbosa de Souza e Fernando Magalhães

PERIÓDICOS:

- Toponímia de Minas Gerais – Ribeiro da Costa Joaquim Imprensa Oficial do Estado Belo Horizonte – 1970 Jornal “O Estado de Minas” edição 10/05/1967 – Coluna “Escrever Bem” do Professor Aires da Mata Machado Filho.
- Ritual Masks of the Chokwe –Bastin, Marie Louise –Smithsonian Institute –Washington –Estados Unidos.
- Enciclopédia da Folha de São Paulo – página 643.
- Otto Lara Resende – Folha de São Paulo (caderno MAIS!) de 17 de Janeiro de 99.
- Jornal “O Muzambinho”, 03/12/1937.
- Enciclopédia Barsa – página 54.
- Enciclopédia Larousse Cultural.

INFORMAÇÕES ORAIS

- Dona Rita Almeida Oliveira – informação oral de Moradora da Rua Cônego Esaú,53 em Muzambinho.
- João Vicente Martins – antropólogo português – Dumba deve ser a palavra “ndumba” que quer dizer leão, especialmente na língua Utchokwe.
- Breno Decinna – arquiteto do IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico) – informação oral.
- Dona Adeli Ferreira – Mãe-de-santo, nação Oió, em Alegrete (RS).
- Informação oral, prestada em Fevereiro de 1999, pelas Sras. Antónia Cravide, Leopoldina e Maria Cristina Dória, naturais de São Tomé e Príncipe, em visita à Casa da Cultura de Muzambinho.
- Emenergildo Pulcinelli - construtor descendente de italianos.
- Messias Gomes de Melo - ex-Prefeito de Muzambinho.
- A dança Moçambique possui vários elementos portugueses - Enciclopédia do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo.
- A informação sobre as palavras: Muzombo e Munsambu foram fornecidas pelo Professor Francisco Gil, angolano, Presidente da Associação de Amigos de Angola em Belo Horizonte e Colaborador da UEMG. Telefone:    ( 031 ) 441-3186.
- Historiador Tarcísio José Martins, autor do livro “Quilombo do Campo Grande” em correspondência a Casa da Cultura de Muzambinho (22/09/99).